Para que ter pressa?

A noite estava agradável, nem muito fria nem muito quente – era verão. Ela esperava por ele na entrada do barzinho que ele sugeriu como ponto de encontro. Estava ansiosa. Se conheceram num rolê qualquer da faculdade, anos atrás, com uma galera aleatória que exagerou no álcool. Eles eram os mais sóbrios e, naturalmente, acabaram se isolando do resto do pessoal. Na época rolou um clima, mas a timidez os impediu de tomar a iniciativa. Apenas trocaram contatos das redes sociais e desde então vinham interagindo exclusivamente pela internet. De like em like foram percebendo que existia uma reciprocidade e o que era apenas uma possibilidade remota se tornou um convite para sair – finalmente! Não, eles não moravam em estados diferentes, mas moravam longe um do outro o suficiente para terem adiado este momento por tempo demais.

Isso é um encontro?

Foi um convite repentino, sem muitas pretensões. Estavam pelas mesmas redondezas e resolveram aproveitar a oportunidade para expandirem a interação para além do mundo virtual.

Putz, pior que nem deu pra eu me arrumar direito. Meu cabelo tá muito zoado hoje… Não trouxe maquiagem nem perfume na mochila. Ai, num sei se fiz bem em aceitar o convite. Mas também nem sei quando a gente teria outra oportunidade de se ver…

Checou as mensagens mais uma vez. Já havia avisado que estava esperando no local combinado e ele respondeu que chegaria em alguns minutos.

Será que eu vou beijar na boca hoje? Pelo menos deu pra escovar os dentes antes de vir. Mas e se eu não quiser beijar ele? E se ele não quiser me beijar?

Inevitavelmente, ela começou a imaginar vários cenários sobre como seria o encontro. Ele dando o cano, ele chegando mega atrasado, ela falando algo inapropriado, outra mulher dando em cima dele, algum bêbado importunando e gerando confusão com briga no final, ela ficando bêbada e vomitando, ele cuidando dela toda vomitada, ele desistindo de vê-la novamente porque ela bebeu demais e se tornou um estorvo, ele se aproveitando dela por estar muito bêbada.

Well, that escalated quickly…

Viu uma figura masculina ao longe.

Caramba, que vontade de fazer cocô. Por que sempre fico com vontade de fazer cocô quando estou prestes a encontrar um crush? Que desagradável isso!

A figura caminhava rápido e vinha na direção do tal bar. Se parecia bastante com o rapaz.

Deve ser por causa do nervosismo. Com certeza tem relação com o sistema nervoso parassimpático. Ou será que é o sistema nervoso simpático? Ai, qual dos dois é o de luta e fuga? Eu sempre me confundo…

De fato, era ele quem ia se aproximando do bar.

Carai, a marmota tá porta! Nessas horas a prisão de ventre desaparece, né? Mano do céu, haja esfíncter! PQP!

– Oi!

– Oi!

Abraçaram-se.

– Faz tempo que você tá me esperando?

– Não – respondeu com a voz um pouco tremida.

– Ah, que bom. Bora entrar então?

– Bora!

Entraram e sentaram-se. Ele pegou o celular. Parecia estar colocando no modo silencioso. Ela notou que suas mãos aparentavam tremer levemente e ficou mais tranquila ao entender que ela não era a única criatura nervosa ali presente.

– Quanto tempo né? – disse ele.

– Pois é! Me conta as novidades!

– Ah, você já sabe a maior parte. Eu posto quase tudo nas redes sociais.

– Hahaha! Verdade! Não fossem as redes sociais e os memes autodepreciativos a gente nem estaria aqui, né?

– Nossa, pode crer! Hahahah! Meu, eu adoro as coisas que você compartilha.

O papo rendeu horas. Em meio às fritas e bebidas (com moderação), não rolou nenhum flerte (que fosse óbvio), muito menos um beijo. Pura timidez. Quando ficou tarde, ela precisou voltar para casa. Despediram-se com um abraço forte.

– Avisa quando chegar.

– Beleza!

.

.

.

Eu sei que esta estória parece um pouco decepcionante. Mas a verdade é que ela ainda não chegou ao fim. Afinal, para que ter pressa? Deixemos o casal seguir seu ritmo. Cedo ou tarde dirão as coisas certas nos momentos certos e o romance vai acontecer naturalmente. Sem a liquidez contemporânea, que molha sem saciar a sede. Com paciência, algo sólido e tangível vai crescer. Algo palpável. E quando isso acontecer, deixemos que se apalpem.

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